domingo, 4 de janeiro de 2015

Depois do 15

O título desse post tem sentido ambíguo. O primeiro e mais óbvio seria depois dos quinze de idade, o segundo só eu sei. Porque depois do 15, de fato, algumas coisas sobre como eu percebo a vida mudaram um pouco. Aqui ouvindo todas as músicas possíveis do Sam Smith pra tentar engolir ele e depois ir ouvindo quando estiver no ônibus, geralmente funciona assim.
04 de janeiro, há uma semana era 2014. Mas como um bom pseudo/neo/modinha-ateu pra mim contagem de calendário é só mais uma convenção social das milhares de milhões que existem nesse mundo grande, e as mudanças de dias de fato não significam nada demais, são só os ciclos de um grande rocha gigante que flutua ao redor de uma estrela.
Falando nela, ou nele, como nossa construção patriarcal prefere chamar uma estrela de ''O Sol'', hoje tentei tirar umas fotos dele pela tarde usando como filtro para a câmera um plástico daqueles de raio-x, mostrando o tórax da minha irmã quando criança.

~apaguei a foto do Sol, então não tenho como colocar aqui.

Não deu muito certo. Mas essa foto mal tirada dele, de certa forma pra mim é perfeita, pois mostra a estrela mais perto da gente, essa bola de gases e calor que funciona há pelo menos uns 5 bilhões de anos, que surgiu sabe-se lá como (perdoem-me os cientistas e as teorias sobre a vida das estrelas, mas foi uma frase retórica) e que até hoje ainda tem muito combustível pra ''queimar'' e mesmo de lá, a uns 150 milhões de km de distancia, ainda nos aquece (até demais aqui na minha cidade) e permite que a vida tenha continuidade. Realmente é assustador pensar isso, que essa bola branca que flutua tão longe já aqueceu desde nossa terra ancestral, aqueceu as primeiras formas de vida, aqueceu as primeiras plantas, o primeiros seres a respirar, aqueceu os primeiros seres que se rastejaram nos solos primitivos de uma Terra que jamais imaginou-se haveria tanta diversidade de vida. Essa bola que está na foto, aqueceu também os ancestrais dos dinossauros, e os próprios dinossauros. Aqueceu os primatas e todos seus descendentes até nós. Nesse curto intervalo de tempo desde quando deixamos de ser caçadores-coletores e começamos a viver em cidades, estava ele lá, quente como sempre foi, assistindo o balé planetário dos seus pequenos filhos estéreis e do mais precioso, a nossa casa. Termino minha singela lembrança desse corpo celeste brilhante que em pouco tempo, estaremos - a Terra - no maior ponto de proximidade da órbita terrestre com ele, o perigeu.

Também vim para escrever sobre minha percepção do tempo. Agora pouco estava pensando, enquanto ouvia música, e percebi que já é dia 04/01 e que amanhã retorno as atividades de trabalho e aula, e do quanto me parece ter passado rápido desde o primeiro dia desse recesso de duas semanas. Nossa, é assustador. Uma hora está lá, todos os 15 dias de um potencial recesso maravilhoso, e depois, amanhã a rotina recomeça. Penso que a vida possa ser assim também, fico perplexo em saber que um belo dia ensolarado, em alguma casa do futuro, sei lá com quem do meu lado, vou acordar e estarei idoso e vou ter percebido, como percebi hoje, o quanto o tempo é volátil, frágil.
Volátil. Foge das mãos sem nem ao menos termos a chance de palpar - se é que é possível. Nossa ideia de felicidade é tão abstrata, ouço todos os dias tantas frases motivacionais sobre aproveitar a vida, sobre ser feliz, atingir essa plena felicidade, então me dou conta que não passam de pensamentos para afugentar o medo de reconhecer a volatilidade do tempo. No fundo somos todos medrosos como, interpretando de forma ingênua, as palavras do Yi-Fu Tuan.

Até agora estou gostando de todas as músicas do Sam, o cara é bom! 

Voltando ao tempo. Um conceito para se abstrair, já que ele não é praticável ou palpável. Tempo. Provavelmente já devo ter falado dele antes, mas ele me fascina, então está no direito de aparecer quando eu quiser aqui. A foto que está ilustrando esse pensamento mostra dois pombos sentados na quina do telhado da vizinha, rendeu uns bons likes do Instagram, e também me fez refletir sobre o antes e o depois. Uma hora os dois estavam lá, sentados olhando assustados o mundo hostil para esses bichos, e num momento depois, um momento volátil, sem que eu pudesse ter feito absolutamente nada, eles não estavam mais, mas registrei na camera, tirei uma foto do antes e do depois. Para mim foi antes e depois, mas talvez para a camera não, ou talvez para os pombos não. É muito confuso tentar entender o tempo além dele próprio, além da nossa própria percepção desde criança da passagem dessa coisa invisível chamada tempo, mas com exercícios constantes vai ficando mais fácil perceber que talvez não exista tempo, só uma percepção de sequencialidades de fatos e ações.
Enfim, é meio enlouquecedor pensar tudo isso, principalmente antes de dormir, mas como já ouvi muito por aí, as madrugadas são feitas para pensar o sentido da vida, e não estou fazendo nada além disso.



Daqui três semanas faço 23 anos. 8401 dias. 201.624 horas. Tudo que eu já vivi. Em pouco mais de duzentas mil horas. O que é isso do lado da época em que viveram os primeiros ancestrais cro-magnon mais parecidos comigo há uns 35 mil anos. O que é isso do lado da idade estimada de 10 milhões de anos do rio amazonas, onde já tomei banho várias vezes. O que são 8 mil dias na frente dos 65 milhões de anos que me separam do último dinossauro de grande porte que viveu? O que são 23 anos na frente dos 4 bilhões desde o surgimento da vida na Terra? Além de volátil, o tempo, me faz perceber que nossas vidas, que parecem tão cheias de importância, tão especiais para o funcionamento do Cosmos, não são absolutamente nada além do que um milésimo de segundo de tempo para o Universo. Tudo que já vivi e talvez vou viver até morrer não vai ser nada comparado a tudo que já aconteceu desde que a Terra é do jeito que conhecemos. Não somos nada. É uma constatação um tanto depressiva e dura, mas já venho me habituando a isso depois de algumas leituras do Sagan principalmente. O Universo é grandioso demais para nós compreendermos sequer nosso ínfimo tempo enquanto estamos vivos.

Prefiro aguardar o próximo beijo, o próximo cheiro, o próximo abraço, puxão de cabelo e sussurro. Já que não nos é dada muita oportunidade de observar a passagem do tempo profundo das mudanças cósmicas - deve ser um singelo bloqueio bondoso que o Universo nos deu, de tão pouco tempo, talvez para não estragarmos demais as coisas, nem a nós mesmos - aguardo o que me é possível nesse milésimo de segundo chamado vida.