segunda-feira, 16 de março de 2015

Dramático!


A semana das semanas. Talvez essa semana que terminou ontem, 14 de março de 2015 mereça esse título até agora. Não lembro de ter passado por dias assim, dessa forma, antes. Posso estar exagerando, sei lá!

Antes de qualquer viagem eu fico ansioso e pensativo, sobre como as coisas vão acontecer, eu quero controlar todos os meus movimentos e os de quem vier a se aproximar de mim, eu fico num estado de automático apenas programando e revendo rotas, horários e preços e acabo realmente esquecendo qual o fim em essência da próxima viagem.
Há pelo menos 5 meses eu vinha preparando a viagem para o show do James Blunt, no dia 11 de março em São Paulo. Comprei primeiro o ingresso, depois a passagem, e por último fiz uma reserva num hostel bem recomendado na cidade, e os dias foram passando até que o dia 10 chegou, o dia do embarque.
Como de praxe, eu fiquei quase uma semana sem dormir pensando sobre entrar no avião novamente, já que tenho pânico e às vezes faço besteira dentro da aeronave - nada grave, mas constrangedor. E no dia dez pela manhã meu pai de deixa de carro no aeroporto, e nem eu mesmo acreditava na minha calmaria, talvez fosse porque eu realmente queria aquilo - diferente de outras viagens que foram obrigadas, aquela eu havia me preparado tanto pra ver o cantor que na hora H eu tava numa placidez incrível. Na sala de embarque fiquei vendo o avião lá fora, aquele objeto enorme feito de metal que leva várias vidas de um lugar ao outro, estava lá me esperando (sadicamente, como todo bom avião faz) para adentrar suas entranhas mecânicas e pressurizadas e voar quase na velocidade do som a 40 mil pés de altura.
Voltando, o avião decolou e durante todo o trajeto tive como companhia um homem e uma mulher casados. Era a primeira vez que ela viajava de avião, e o marido disse que já tinha viajado, mas ele realmente estava nervoso a ponto de não parar de mexer freneticamente no celular o tempo todo. Eles estavam indo para uma viagem com um grupo de amigos, em um cruzeiro que partiria de Santos até algumas praias paradisíacas do Rio de Janeiro. Durante alguns procedimentos, eu, o dramático, precisei explicar para a mulher o que eram os sons do avião e porque isso ou aquilo acontecia e tentar convence-la de que o avião não tava caindo. Foi bem engraçado, a viagem de ida aconteceu bem, sem muita turbulência, e quando ouvi ''Sejam bem-vindos a São Paulo" percebi onde eu havia me metido.
A ficha caiu na hora que ouvi isso, percebi que estava completamente sozinho, pela primeira vez, na maior cidade da América latina. Sozinho em Sampa.

Xegay

No fundo, além daquele medinho, e mais além da prepotência controladora das coisas, eu estava empolgado, talvez esse fosse meu atestado de independência - não financeira, não emocional, porém mais profunda, uma independência subjetiva, mais gostosa, mais atraente, em saber que a partir dali qualquer outra coisa que eu fosse me meter a fazer, eu conseguiria. Pra muita gente pode parecer bobagem, mas aquele momento de chegar no aeroporto de São Paulo e me perceber sozinho no meio da multidão teve um significado.
Como já havia pesquisado tudo em todos os sites possíveis e lido informações redundantes durante várias semanas antes de vir, eu já sabia uns nomes de lugares, rotas de ônibus e metrô, e automaticamente segui caminho. Peguei um ônibus do serviço de aeroporto até a estação de metrô do Tietê, e dessa estação segui para a estação Paraíso, próxima ao hostel que fiquei hospedado. No início foi meio confuso ver aquela quantidade de gente andando rápido para todos os lados, tantas placas com nomes e escadas para vários acessos, mas só foi seguir as setas intuitivamente que eu consegui chegar na estação que queria.
Sai da estação, segui o caminho que vi no mapa, desci a maior ladeira da minha vida e cheguei num hostel chamado Aki. Lá fui recebido por uma senhora oriental (não vou dizer japonesa porque não sei de onde ela é) chamada Tamiko. Eu havia chegado em casa.
Me senti bem acolhido por ela, que tratou logo de aprender meu nome e me apresentou toda a estrutura do local - por sinal muito boa, tudo novo e bem pintado, limpo e com um staff simpático e eficiente. Dona Tamiko conversou tanto comigo que fiquei mais cansado de falar do que de descer a ladeira, não estou reclamando.
Expliquei qual o objetivo da minha viagem, e como surpresa, ouvi ela dizer que também iria para o show do Blunt. Iria! Desistiu por causa de uma amiga que seria a companhia dela, mas que desistiu também. E pelo fato de ela ter mais idade - a Tamiko, ela desistiu para não ir sozinha. Vendo que eu estava só (ela deve ter achado isso uma coisa ruim) decidiu que cada hóspede que ela visse passando perguntaria se esse hóspede também iria ver o Blunt haha.



22:00 - ZZZzzzzZZZZ

toc toc
''Oi Cristiano!!!! Tenho uma surpresa! Encontrei um acompanhante para você! Esse rapaz também vai para o show, e adivinha? Ele é de Manaus também!!!''

Eu só de cueca, com cara de sono cumprimentei meu novo colega de viagem - o primeiro imprevisto para um dramático controlador que já havia planejado cada passo. Conversamos, e ele se convenceu a sair do quarto compartilhado entre 15 pessoas, para dormir no mesmo quarto que eu, também compartilhado para 6 pessoas, mas que naquele dia só eu tinha reserva para dormir lá, e depois o novo colega. Conversamos até tarde e já parecíamos amigos de infância.

No dia seguinte, pelo fato de termos conversado até tarde, acabamos dormindo até tarde também - além da própria contribuição do tempo maluco que faz em São Paulo em março, no qual chove a cada 15 minutos e entre os intervalos da chuva faz sol. Essa chuva dá mais sono... Durante a tarde nos preparamos para o show, e saímos de táxi. O show foi no Clube Atlético Juventus, no bairro Parque da Mooca. Decidimos ir de táxi porque já estávamos atrasados e poderíamos ficar sem um lugar bom no palco. Chegamos por volta de 15:30 e já tinha mais de 30 pessoas na fila, inclusive fãs clubes fardados, com tenda, comida e broches. Foram sete horas de espera, o show estava marcado para começar às 22:00, mas só abriram o portão às 23:00. Durante a tarde choveu muito, compramos capas de chuva, tiramos fotos com as pessoas só pelo fato de termos vindo de Manaus... E ganhei um broche de lembrança de uma moça simpática que estava distribuindo para todos. Antes de abrirem os portões ocorreu uma briga por que uma pessoa queria furar a fila e entrar na frente de quem já estava há horas lá, como eu e o novo colega.
Quando abriram os portões teve correria, o povo desesperado querendo chegar logo para pegar um bom lugar... Eu corri também e consegui ficar logo na frente, do lado esquerdo do palco mas na frente. Depois de muito calor, gente desmaiando e vaias, o show começou por volta de meia noite e aí foi tudo incrível. 

Gostoso

Realizei um sonho de assistir o James Blunt cantar ao vivo, eu fiquei tão feliz que comecei a chorar ali mesmo, ouvindo 1973 e todas aquelas pessoas reunidas cantando junto, foi tudo tão incrível. Ta aí uma coisa boa que vai ecoar na minha cabeça pra sempre, e sempre.

No dia seguinte ao show dormimos praticamente todo o dia e não deu para aproveitar muito. Nesse dia compramos umas coisas para preparar para comer na cozinha de hóspedes. Enquanto eu fazia uma arroz e preparava frango, entrou na cozinha uma senhora com uma sacola cheia de coisas. Ela disse algumas palavras meio tímidas em espanhol, e eu, metido a inteligente como sou, puxei logo assunto num espanhol improvisado mas que depois recebeu elogio. Ela queria comer tapioca, disse que havia gostado muito mas não sabia preparar... A mulher foi no supermercado, comprou goma de tapioca, queijo e orégano - o tempero. Até aí tudo bem, só uma pessoa estrangeira querendo comer tapioca. O problema foi na hora de usar o fogão - daqueles que não tem fogo, é apenas uma chapa de vidro que se aquece. É IMPOSSÍVEL FAZER TAPIOCA NAQUILO. pronto resumindo, eu disse que era acostumado a fazer tapioca, e que a ajudaria. Colocamos a goma numa panela e na hora de ligar o fogão, ele automaticamente ficou em 2000 watts. A goma na panela fez um barulho estranho e EXPLODIU. voou tapioca para todos os lados, sujou a mulher, a cozinha  tudo mais... Foi bem engraçado.

Maria, mora na California, tinha ido visitar o filho de 20 anos que está morando em São Paulo e veio estudar no Brasil por um tempo. Ela falou sobre a vida nos EUA, contou curiosidades, sobre os medos de ter um filho tão novo sozinho mundo a fora, com estranhos... Os medos de qualquer mãe.


E na sexta-feira fui dar uma andada no Centro de São Paulo... fomos até um local chamado Galeria do Rock, é bacana tem umas coisas interessantes. Foi nesse dia que conheci pessoalmente um amigo até então virtual, Ricardo. Nos falamos pela internet há uns 3 anos, e agora tivemos a oportunidade de se conhecer de verdade... Ele ficou sexta, sábado e domingo hospedado lá no hostel comigo. Na sexta a noite ficamos no hostel bebendo cerveja, cantando e conversando, foi aí que conheci o filho da Maria, ele se enturmou logo e já havíamos formado um grupo.
No sábado, meu colega manauara de quarto voltou pra casa, e como eu só retornaria no domingo, resolvi sair com o Ricardo e o namorado dele, Gu, que também veio me ver, e ficou hospedado conosco. O novo colega americano resolveu ir se hospedar em outro hostel, já que naquele tudo era pago, inclusive a água, então saímos de manhã, ajudamos ele a carregar as coisas, almoçamos e fomos para o outro hostel deixar as coisas dele e sair para dar uma volta. Fomos visitar a Pinacoteca de São Paulo, com uma exposição legal de Burle Marx, e depois partimos para a Rua Augusta! 
às 19:00 já estava começando a fervilhar. Paramos num barzinho temático de ''carniceria'', tomamos uma lá, e aos poucos fomos visitando outros lugares bacanas, mas tudo muito caro. Eu, Ric, Gu e o colega dos EUA. Ficamos a noite toda praticamente caminhando na Paulista, entrando e saindo de barzinhos, e por fim, acabamos comprando cerveja num supermercado e ficamos tomando nas escadas do Franz Café... Ficamos lá por horas conversando, bebendo, e foi bem bacana. Eu não costumo fazer esse tipo de atividade em Manaus, mas lá abri uma exceção justa. 

(f)utilidade pública: Achei um bilhete perdido para a Amanda no meio da Paulista, se um dia a Amanda ler esse texto, pode me procurar para eu devolver o bilhete ;) (quem sabe a Amanda viaje muito, por isso não vive no meio deles)

Ganhei o apelido de 'dramático' leia com o som de um estrangeiro de língua inglesa falando. Dramático porque eu penso demais, talvez, e meus fluxo de pensamento acabam escapando sempre. hahaha faz parte.

Terminamos a noite num barzinho na mesma rua do hostel, a rua do Paraíso, uma ambiente muito bom, pequeno, com um senhor dono do bar muito carrancudo, mas segundo uma reportagem na parede, assim ele conquistou os clientes. Todos estávamos altos, exceto o Ric, que se continha na bebida (não sei porque, mas ele alegava que poderia fazer mal - ou seja, fazendo A KATÓLYCA) e ficamos lá até uma da manhã. Depois voltamos para o Aki, como o american boy já tinha feito check-out pela manhã não poderia mais dormir lá, mesmo assim demos um jeito e ninguém ficou sabendo hahaha. Fomos para o quarto nós quatro, conversamos mais um pouco e resolvemos dormir. Assim terminou a viagem pra São Paulo.

Não vou mais entrar em detalhes, pois seria invasão de privacidade, minha, e de quem participou da viagem, evitei usar muitos nomes, ou descrever mais detalhes sobre a vida das pessoas com quem cruzei, mesmo sendo um blog diário pessoal, não deixa de estar na internet, e sujeito a visitas seja de quem for um dia encontrar isso que não seja por mim mesmo. Agora um pouco dos devaneios sobre a viagem, já que a primeira parte do post foi um relato descritivo, não poderia deixar de ter uma visão mais subjetiva e reflexiva sobre a viagem como um todo.


Viajar, pra mim, tem se tornado especial e um momento de descobertas em todos os sentidos. No começo era mais para ver paisagens e coisas diferentes - ainda é, mas agora com um tempero a mais. Nunca havia ficado num hostel, e tinha preconceito quanto a isso. Porém agora percebi que é um ambiente bacana - sem assassinos, talvez, onde é possível conhecer gente nova, ter novas experiências e treinar o inglês e o portunhol haha. Aqui em casa algumas pessoas falam sobre viagem de uma forma ruim, como se fosse um luxo, ou uma vaidade desnecessária. Pra mim desnecessário é se prender em casa, se prender a um lugar e não ter vontade de conhecer o novo, ver com os próprios olhos a vida acontecer em outras partes desse planeta, ver outras pessoas, cruzar histórias de pessoas que talvez você nunca conhecesse na vida se não viajasse, fazer amigos, caminhar quilômetros numa avenida gigante em São Paulo, pegar chuva na fila para ver um show, tentar fazer tapioca com uma estrangeira e ver a tapioca explodindo, é dessas coisas que eu falo, parecem simples mas fazem a diferença sim pra construir quem você é, ou se se descobrir de verdade, ter autonomia pra ir aos lugares e pedir informação e conseguir chegar lá. Como li uma vez num livro do Alain de Botton a viagem é uma autodescoberta e das mais incríveis que alguém pode ter, seja por 5 dias como foi essa minha, seja por vários meses como tem sido a do american boy, seja pela vida toda, como é a vida.


Valeu :)