Mais um dia.
Mais um dia.
E
aqui mais um dia.
Todo dia ao acordar era essa a primeira coisa que passava pela minha cabeça nas últimas 3 semanas.
Apresentei praticamente todos os sintomas do covid-19, pra alento da ansiedade. Ela precisou entender mais do que eu que a falta de ar agora era de verdade.
Enquanto escrevo esse texto, faz uns dois dias que tenho fôlego e otimismo de novo. Ainda não estou recuperado totalmente, eu acho. Mas me sinto melhor do que me senti em todo o mês de abril de 2020.
Tudo começou na primeira semana de abril, quando Ináã e eu estávamos com uma inflamação de garganta trazida de março e que provavelmente era uma virose comum que se pega aqui perto da Linha do Equador, nesses ares quentes e molhados essa época.
No meu caso, a inflamação passou, e no dia seguinte veio a febre. O primeiro sinal dos dias de angustia que estavam por vir.
Dia após dia os sinais vinham, como que se empilhando sobre os ombros e o pulmão, primeiro a febre, depois a dor de cabeça, o olfato vai embora, o paladar desaparece. Depois chega um cansaço que mesmo nos dias mais intensos da vida de geográfo nunca havia sentido, cansaço físico, o mundo gira o tempo todo, a cabeça pesa, o andar é pesaroso. Depois vem o cansaço da respiração. Uma corrida parada que se arrasta por minutos, horas, dias. Uma interminável corrida que me cansou e deixou ofegante por dias e dias.
E o pulmão se deixa levar, fingindo que não existe, impondo à mente que o fim vem logo ali, daqui um minuto, daqui uma hora, ou quem sabe amanhã.
Um flerte com a morte, percebi o frágil limiar da vida e da não vida, aquela tênue linha que separa todo o ar que existe em volta e o pulmão acometido, frágil e que nos separa do fim.
O pulmão. Nunca tinha pensado muito nele até perceber quando ele não funciona direito. Na verdade todos nossos órgãos, todo nosso corpo é a fronteira entre estar vivo ou não. Um único coração, um único cérebro, dois pulmões que precisam estar juntos e bem, um único corpo. A percepção da corporidade que o vírus dá, de perceber nossa finitude ali tão próxima, de perceber que um corpo só separa a consciência da outra coisa que vem depois. O mundo ali existindo, o ar passando no céu, o sol seguindo seu rumo, e o corpo agora é percepção, muito além acima da angústia.
Os dias passam e as sensações permanecem, como se fossem novas velhas amigas que vieram pra merenda e nunca mais foram embora.
Primeiro dia, segundo dia, quinto dia, oitavo dia... Os dias se tornam uma contagem regressiva para o não saber. Não que antes se soubesse do amanhã, mas agora não se sabe mesmo. Uma certeza de não se saber, talvez confirmada mais ainda, talvez nunca percebida, os planos e projetos são nosso auto-engano e falso controle sobre o por vir. Controle.
A percepção da perda de controle é mais uma paulada na ansiedade. Não se tem controle, não se sabe, ninguém pode ajudar. Controle.
Respirar é o único controle. Puxar o ar até onde dá, soltar. Puxar o ar até onde dá, soltar. O ar vem e vai, não satisfaz. Preciso mesmo de todo esse ar? Ou a mente prega peças?
Qual o limite pra buscar ajuda? Será que estou grave e não sei? Qual o limite? Ninguém sabe.
O limite hospitalar é o oxímetro que sempre diz que o oxigênio tá bom, "o pulmão tá compensando" diz o médico, "oxigênio só pra caso grave", diz a médica, toma antibiótico, toma paracetamol, toma cloroquina. Ninguém sabe.
O Pulmão tá compensando, tá cansado do trabalho extra, tá compensando, a morte é logo ali. Quando?
Vai compensar hoje? Vai compensar na hora de dormir? Quando vou saber que não compensou? Compensação.
O corpo como número. 1+1=? As sensações deixam de ser a linha de corte, o % é meu novo estar bem.
Vai pro médico, volta pra casa, vai pro médico, não é atendido. Vai pro médico. Dezenas e dezenas de gentes, pobres diabos, culpados e desculpados, reféns dos algozes do dinheiro, a economia não pode parar. Morre 1000, logo ali tem 10.000 desesperados pro emprego. Morre 10.000, logo ali tem 100.000 querendo trabalhar. Vai lá, pra rua, vai lá, pega o ônibus lotado, leva logo o vírus para longe, assim acaba logo tudo. Logo ali tem 1.000.000.
É mentira! Ouvi dizer, puxa o ar, solta. A gripezinha! Na tv. Puxa o ar, solta. Não sou coveiro! Puxa o ar, não tem o ar.
Dias, 18, um grande devaneio coletivo. Um grande devaneio que o sol precisa queimar minha pele para saber que ainda existo. O pouco ar tira aquela velha sensação da consciência, o tempo perde o sentido, os dias vem e vão sem se perceber. O cansaço tira a percepção da realidade. Realidade.
O vírus tirou o meu olfato, que é uma das melhores coisa que tenho. Tirou meu paladar, queimou os olhos, o vírus tirou a fome totalmente, não senti vontade nem de beber água por dias, o fiz obrigado por mim mesmo e pelo Ináã. O vírus tirou o meu ar, o pulmão ficou pequeno e apertado. O vírus tira a esperança, o amanhã. É muito além de uma infecção física, ele atua na mente, na alma.
Um dia o ar volta, ele diz todo dia. As vezes ele deixa entrar, cinco minutos, para enganar que tudo vai ficar bem. As vezes ele finge que foi embora, deixa ver um filme. As vezes ele deixa dormir bem e até sonhar.
15 dias! 25 dias! 39 dias! Dias, dias, dias. A vida contada nos dias que falta(riam).
Ela no dia 10 melhorou, ele no dia 15 superou, ela no dia 2 morreu. E eu?
Passou dia 15, passou o 16, e o ar quer voltar.
O vírus se quer ir? Ninguém sabe. Pode voltar? Ninguém sabe. Pode agravar. Pode curar. Poderes.
Escrevo esse relato lá pelo dia 18 ou 19, ta tanto faz. A febre passou, o gosto voltou, o cheiro já dobra a esquina. O ar enche o pulmão ainda tímido, mas sem angústia. A escada ainda o arranca do peito.
O vírus veio como um temporal de agosto, daqueles com raios e nuvens cinzas grandes. Agora parece que se vai, mas como o rio Solimões que baixa um pouco todo dia. Quando a praia aparece?
Andiroba, mastruz, malvarisco, fruta, legumes, verdura. Fé. Anota!