quarta-feira, 22 de abril de 2020

O ar que eu respiro

Mais um dia.
Mais um dia. E
aqui mais um dia.
Todo dia ao acordar era essa a primeira coisa que passava pela minha cabeça nas últimas 3 semanas. Apresentei praticamente todos os sintomas do covid-19, pra alento da ansiedade. Ela precisou entender mais do que eu que a falta de ar agora era de verdade.

 Enquanto escrevo esse texto, faz uns dois dias que tenho fôlego e otimismo de novo. Ainda não estou recuperado totalmente, eu acho. Mas me sinto melhor do que me senti em todo o mês de abril de 2020.

 Tudo começou na primeira semana de abril, quando Ináã e eu estávamos com uma inflamação de garganta trazida de março e que provavelmente era uma virose comum que se pega aqui perto da Linha do Equador, nesses ares quentes e molhados essa época. No meu caso, a inflamação passou, e no dia seguinte veio a febre. O primeiro sinal dos dias de angustia que estavam por vir.

Dia após dia os sinais vinham, como que se empilhando sobre os ombros e o pulmão, primeiro a febre, depois a dor de cabeça, o olfato vai embora, o paladar desaparece. Depois chega um cansaço que mesmo nos dias mais intensos da vida de geográfo nunca havia sentido, cansaço físico, o mundo gira o tempo todo, a cabeça pesa, o andar é pesaroso. Depois vem o cansaço da respiração. Uma corrida parada que se arrasta por minutos, horas, dias. Uma interminável corrida que me cansou e deixou ofegante por dias e dias.

E o pulmão se deixa levar, fingindo que não existe, impondo à mente que o fim vem logo ali, daqui um minuto, daqui uma hora, ou quem sabe amanhã.

Um flerte com a morte, percebi o frágil limiar da vida e da não vida, aquela tênue linha que separa todo o ar que existe em volta e o pulmão acometido, frágil e que nos separa do fim.

O pulmão. Nunca tinha pensado muito nele até perceber quando ele não funciona direito. Na verdade todos nossos órgãos, todo nosso corpo é a fronteira entre estar vivo ou não. Um único coração, um único cérebro, dois pulmões que precisam estar juntos e bem, um único corpo. A percepção da corporidade que o vírus dá, de perceber nossa finitude ali tão próxima, de perceber que um corpo só separa a consciência da outra coisa que vem depois. O mundo ali existindo, o ar passando no céu, o sol seguindo seu rumo, e o corpo agora é percepção, muito além acima da angústia.

Os dias passam e as sensações permanecem, como se fossem novas velhas amigas que vieram pra merenda e nunca mais foram embora.

Primeiro dia, segundo dia, quinto dia, oitavo dia... Os dias se tornam uma contagem regressiva para o não saber. Não que antes se soubesse do amanhã, mas agora não se sabe mesmo. Uma certeza de não se saber, talvez confirmada mais ainda, talvez nunca percebida, os planos e projetos são nosso auto-engano e falso controle sobre o por vir. Controle.

A percepção da perda de controle é mais uma paulada na ansiedade. Não se tem controle, não se sabe, ninguém pode ajudar. Controle. Respirar é o único controle. Puxar o ar até onde dá, soltar. Puxar o ar até onde dá, soltar. O ar vem e vai, não satisfaz. Preciso mesmo de todo esse ar? Ou a mente prega peças? Qual o limite pra buscar ajuda? Será que estou grave e não sei? Qual o limite? Ninguém sabe.

O limite hospitalar é o oxímetro que sempre diz que o oxigênio tá bom, "o pulmão tá compensando" diz o médico, "oxigênio só pra caso grave", diz a médica, toma antibiótico, toma paracetamol, toma cloroquina. Ninguém sabe.

O Pulmão tá compensando, tá cansado do trabalho extra, tá compensando, a morte é logo ali. Quando? Vai compensar hoje? Vai compensar na hora de dormir? Quando vou saber que não compensou? Compensação.

O corpo como número. 1+1=? As sensações deixam de ser a linha de corte, o % é meu novo estar bem. Vai pro médico, volta pra casa, vai pro médico, não é atendido. Vai pro médico. Dezenas e dezenas de gentes, pobres diabos, culpados e desculpados, reféns dos algozes do dinheiro, a economia não pode parar. Morre 1000, logo ali tem 10.000 desesperados pro emprego. Morre 10.000, logo ali tem 100.000 querendo trabalhar. Vai lá, pra rua, vai lá, pega o ônibus lotado, leva logo o vírus para longe, assim acaba logo tudo. Logo ali tem 1.000.000.

É mentira! Ouvi dizer, puxa o ar, solta. A gripezinha! Na tv. Puxa o ar, solta. Não sou coveiro! Puxa o ar, não tem o ar.

Dias, 18, um grande devaneio coletivo. Um grande devaneio que o sol precisa queimar minha pele para saber que ainda existo. O pouco ar tira aquela velha sensação da consciência, o tempo perde o sentido, os dias vem e vão sem se perceber. O cansaço tira a percepção da realidade. Realidade.

O vírus tirou o meu olfato, que é uma das melhores coisa que tenho. Tirou meu paladar, queimou os olhos, o vírus tirou a fome totalmente, não senti vontade nem de beber água por dias, o fiz obrigado por mim mesmo e pelo Ináã. O vírus tirou o meu ar, o pulmão ficou pequeno e apertado. O vírus tira a esperança, o amanhã. É muito além de uma infecção física, ele atua na mente, na alma.

Um dia o ar volta, ele diz todo dia. As vezes ele deixa entrar, cinco minutos, para enganar que tudo vai ficar bem. As vezes ele finge que foi embora, deixa ver um filme. As vezes ele deixa dormir bem e até sonhar.

15 dias! 25 dias! 39 dias! Dias, dias, dias. A vida contada nos dias que falta(riam). Ela no dia 10 melhorou, ele no dia 15 superou, ela no dia 2 morreu. E eu? Passou dia 15, passou o 16, e o ar quer voltar.

O vírus se quer ir? Ninguém sabe. Pode voltar? Ninguém sabe. Pode agravar. Pode curar. Poderes.

Escrevo esse relato lá pelo dia 18 ou 19, ta tanto faz. A febre passou, o gosto voltou, o cheiro já dobra a esquina. O ar enche o pulmão ainda tímido, mas sem angústia. A escada ainda o arranca do peito.

O vírus veio como um temporal de agosto, daqueles com raios e nuvens cinzas grandes. Agora parece que se vai, mas como o rio Solimões que baixa um pouco todo dia. Quando a praia aparece? Andiroba, mastruz, malvarisco, fruta, legumes, verdura. Fé. Anota!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Sobre o silêncio, sobre corações partidos e sobre raiva, mas não sobre tudo isso necessariamente

Não ia escrever, mas resolvi voltar. Coloquei uma música deprê do Ben Howard e resolvi voltar, porque as ideias também vieram, mais pra desafogar a cabeça.
Essa semana parei para olhar o céu como sempre faço, e nessa noite tava um silêncio absoluto, nem mesmo aquele comum barulhinho que vem de longe... Tava um silêncio tamanho, reflexivo, deprimente e revigorante. Dava vontade de mergulhar naquele silêncio e voar pra longe. Quando tá muito silêncio, e eu to olhando pro céu, até meus pensamentos ficam silenciados. Por isso um dia quero ter uma casa com teto de vidro, pra poder dormir em paz, já que um teto comum me faz ver só o que ele permite, dando margem pra mergulhar em canais bagunçados da mente. O céu é tão magnífico, mesmo não existindo de fato, olhar para aquela massa de gases que flutuam em torno da Terra, e que são transparente o suficiente pra ver o Universo, pra ver onde nós flutuamos e flutuaremos até morrer. Olhar para cada ponto daquele, saber que é um sol maior ou menor do que o nosso, e que aquela luz saiu deles há muito tempo, quando nem mesmo existia gente na Terra, é coisa demais pra eu conseguir absorver. Até hoje nunca consegui absorver tudo isso, por isso fico fascinado toda vez. Já tive poucas oportunidades de olhar o céu sem interferência de luzes da cidade. Nossa. Sem palavras para o que é aquilo, aquele complexo de luzes e formas, dá pra ver o braço da nossa galáxia... Imagino o que as pessoas na antiguidade, antes das luzes elétricas, pensavam quando olhavam aquilo. Só isso já justifica muita coisa sobre o sobrenatural, porque algo tão magnífico só poderia ter uma explicação simplificada no sobrenatural. É fácil ser ateu sem olhar o céu hahaha Ou é fácil ser ateu ao olhar o céu, é um paradoxo subjetivo. Na verdade ultimamente estou assim, com paradoxos subjetivos, paradoxos sentimentais de sentir raiva e alegria, liberdade e encarceramento, tudo ao mesmo tempo... Sentimentos que talvez não tenham nem nome na língua portuguesa, mas que existem diariamente... Ah, ser humano, ser humano que sou, que somos.
O meu coração partido pela paixonite não correspondida ainda me afeta, é complicado passar por essa fase que os psicólogos chamam de ''luto sentimental'' ou algo assim. Às vezes tem mesmo uma dorzinha física, um desespero, uma vontade de gritar, de bater, mas aí passa e só vem uma tristeza chata e a sensação ingênua de que se vai passar a vida toda sentido aquilo. Eu sei de tudo isso, já passei antes, e to passando de novo, e sei que vai acabar, mesmo assim a gente se alimenta achando que vai ser eterno, mas uma hora acaba. Mais paradoxos.
Eu fico chateado em gerar expectativas com quem me rodeia, e de como eu sou idiota. Não tem uma palavra que defina mais bem. Não sei como aprendi ela, nem qual o significado real, mas na minha mente ela expressa perfeitamente bem o que estou achando.
Pronto, acho que desabafei 10% da minha raiva, ou mais, sei lá. Mas é bom escrever em algum lugar, pra eu mesmo ler, e pra ficar registrado que um dia eu senti isso.
Hoje as coisas deram um pouco errado no meu dia, não consegui fazer com êxito o que tentei, mas não me afeto, depois faço melhor e vai sair bom.
Meus fluxos de pensamento tem andado tão agitados, tão contínuos como nunca antes, ou só agora tenho percebido isso direito. Tenho medo de ficar louco, mas aí lembro que os loucos não sabem que são. Ou sabem. Sei lá, nunca li nada a respeito.
Acho que por hoje já escrevi o que precisava, preciso urgente ir pra algum lugar longe, ver um cenário novo, ou rever, respirar um ar distante, pegar estrada. Não férias, só fuga. Fugir das âncoras desses pensamentos daqui, das ruas de lembranças, prédios, hotel, shopping, lembranças e cenas que só me fazem ir mais fundo com essa âncora amarrada em mim. Preciso cortar essa corrente e nadar para a superfície da decência o mais rápido possível pra não me alimentar mais ainda de tristeza por coração partido, principalmente quando sua paixonite provavelmente já foi chupada por outras laranjas. Eu tive 20 anos há 3 anos e fui diferente do que os que tem 20 são hoje. As pessoas tem medo de crescer, de aprender, de vivenciar e não só viver, sobreviver. O diário é meu e eu escrevo pra mim mesmo, então isso não é lição de moral, são só meus fluxos.
As pessoas são inseguras, ingênuas, indiferentes, por isso o mundo é desse jeito. Esse papo de acreditar na humanidade é só enganação. Humanimais, nada mais. Que nem sabem pra que existem. Nem eu.

sábado, 2 de maio de 2015

Peças de reposição, é, coração



As músicas do Ben Howard tem a incrível força de me inspirar a pensar mais profundamente sobre as coisas e me fazer escrever sobre a maioria das coisas que penso. Hoje sem vinho, nem álcool, só um refrigerante meio ruim que vende aqui em Manaus. Esses últimos tempos tenho sentido a necessidade de escrever mais aqui no meu diário/blog/sei lá o que. Talvez por eu mais uma vez ter levado um pé na bunda, por ter confiado demais. Na verdade paixonite só criada na minha cabeça. E quem se ferrou emocionalmente, eu. Afinal, o que são sentimentos? Existem de verdade? Não terão utilidade alguma - desculpa o pensamento sobre só atribuir importancia às coisas que tem utilidade pro mundo - mas o que eu sentir agora vai realmente ter importancia daqui 2 mil anos? Ou alguém nesse mundo sabe como uma pessoa que viveu há 2 mil anos se sentiu e se importa com isso?
Estava vendo o Facebook (que agora desativei de novo) de uma colega de trabalho. Quando bati os olhos nela percebi que é lésbica. Faz alguns meses que trabalhamos juntos, porém ela nunca deu nenhum indicativo de nada e nem me importo isso, afinal é a vida pessoal dela. Mas como bom stalker que sou, fucei o facebook até achar a tal pessoa com quem ela vivia, segundo um relato que ela mesmo contou uma vez. Acabei descobrindo o nome, cidade natal, e provavelmente o tempo que estão juntas. Ah, as redes sociais. Esse foi um dos motivos pelo qual eu resolvi cancelar de novo o Facebook, e agora o Instagram. Só não cancelo o G+ porque minha relação com essa rede é bem diferente do que foi com as outras, nas quais eu me expus demais. Ninguém mais hoje em dia, nas redes sociais virtuais, tem mais intimidade. Fica tudo muito aberto, indiscreto, nosso lado ''eu'' se perde em meio aos likes. Não quero isso pra minha vida.
A noite está bem estranha, não se decide se fica abafada ou fresca, mas nem estou com ar condicionado - o que para os padrões daqui significa um dia frio. Lá fora as nuvens passam baixas, alaranjadas pelas luzes. Sem aviões, sem latidos, sem motos, sem gente. Tudo um silêncio, um desespero, uma falta. Eu também hoje estou meio assim, uma mistura, não sei se choro, se rio, se danço, se leio, se vejo TV, se existo. As coisas estão meio sem sentido. Mas preciso aprender a não atribuir o sentido das coisas apenas por quem eu me apaixono, como se eu dependesse de outro sempre.
Na verdade nem estava com muita vontade de escrever hoje, mas resolvi, pra ver se consigo pelo menos dormir em paz. Ultimamente tenho ficado sem sono de madrugada, dormido lá pelas 5 quando os barulhos começam aqui em casa e lá fora. Aí acordo quase na hora de ir pro estágio, e fico o dia apático.
Estou pensando em ir pra Roraima mês que vem, dar uma volta. Eu gosto de lá, as paisagens, o relevo, a cidade pacata. Tenho tios que moram lá, então poderia economizar num hotel, e apenas ficar passeando, O maior problema é ir sozinho pra lugares assim, já que não se pode confiar muito nas pessoas estranhas em lugares muito isolados, não faria sentido eu me meter sozinho pra serra do Tepequém, de ônibus. Mas se for mesmo, combino com algum parente de lá. Estou precisando viajar, nem que seja pra algum interior. Uma coisa que tem acontecido comigo é que as viagens se tornam divisores de águas de momentos na minha vida, sempre que acontece alguma coisa não muito legal, e quando vem uma viagem, eu volto reciclado e superado. Não que eu tenha viajado muito até hoje, mas das que eu fiz, quase coincidiram com paixonites terminadas, declarações familiares, etc, e as viagens ajudam a superar isso, as experiências e principalmente os cenários e janelas que eu vejo, faz tudo ficar limpo na mente.
Estou pensando em fazer um livro chamado pancromático e tratar de algumas questões que me fazem refletir, mas isso vou escrever depois, já que só eu mesmo leio isso aqui.
Só mais uma... a minha música preferida, a letra é tão bonita, e o som também:



Mais uma vez, melhor terminar sem um fim. Acho que amanhã, ou depois, ou mês que vem eu escrevo.




quinta-feira, 30 de abril de 2015

Horário

Um bando de cachorros latindo. O ar abafado e úmido. Vozes de estranhos perambulando na rua. Acabei de comer... E estou escrevendo pelo celular. Esse é o pior horário, em que o mundo fica em silêncio, os mal intensionados praticam suas intenções. O horário que todas as lembranças surgem em forma de lágrima no meu rosto. É um tanto desesperador. Falta ombro. Nos ultimos dois dias meus sentimentos vivenciaram novamente o que não vivenciavam há tempos... Não sei sobre nada. Deve ser esse o motivo do choro. De eu não ter ciencia ou controle sobre uma situação. Mas nao sou controlador, só queria existir direito.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Dramático!


A semana das semanas. Talvez essa semana que terminou ontem, 14 de março de 2015 mereça esse título até agora. Não lembro de ter passado por dias assim, dessa forma, antes. Posso estar exagerando, sei lá!

Antes de qualquer viagem eu fico ansioso e pensativo, sobre como as coisas vão acontecer, eu quero controlar todos os meus movimentos e os de quem vier a se aproximar de mim, eu fico num estado de automático apenas programando e revendo rotas, horários e preços e acabo realmente esquecendo qual o fim em essência da próxima viagem.
Há pelo menos 5 meses eu vinha preparando a viagem para o show do James Blunt, no dia 11 de março em São Paulo. Comprei primeiro o ingresso, depois a passagem, e por último fiz uma reserva num hostel bem recomendado na cidade, e os dias foram passando até que o dia 10 chegou, o dia do embarque.
Como de praxe, eu fiquei quase uma semana sem dormir pensando sobre entrar no avião novamente, já que tenho pânico e às vezes faço besteira dentro da aeronave - nada grave, mas constrangedor. E no dia dez pela manhã meu pai de deixa de carro no aeroporto, e nem eu mesmo acreditava na minha calmaria, talvez fosse porque eu realmente queria aquilo - diferente de outras viagens que foram obrigadas, aquela eu havia me preparado tanto pra ver o cantor que na hora H eu tava numa placidez incrível. Na sala de embarque fiquei vendo o avião lá fora, aquele objeto enorme feito de metal que leva várias vidas de um lugar ao outro, estava lá me esperando (sadicamente, como todo bom avião faz) para adentrar suas entranhas mecânicas e pressurizadas e voar quase na velocidade do som a 40 mil pés de altura.
Voltando, o avião decolou e durante todo o trajeto tive como companhia um homem e uma mulher casados. Era a primeira vez que ela viajava de avião, e o marido disse que já tinha viajado, mas ele realmente estava nervoso a ponto de não parar de mexer freneticamente no celular o tempo todo. Eles estavam indo para uma viagem com um grupo de amigos, em um cruzeiro que partiria de Santos até algumas praias paradisíacas do Rio de Janeiro. Durante alguns procedimentos, eu, o dramático, precisei explicar para a mulher o que eram os sons do avião e porque isso ou aquilo acontecia e tentar convence-la de que o avião não tava caindo. Foi bem engraçado, a viagem de ida aconteceu bem, sem muita turbulência, e quando ouvi ''Sejam bem-vindos a São Paulo" percebi onde eu havia me metido.
A ficha caiu na hora que ouvi isso, percebi que estava completamente sozinho, pela primeira vez, na maior cidade da América latina. Sozinho em Sampa.

Xegay

No fundo, além daquele medinho, e mais além da prepotência controladora das coisas, eu estava empolgado, talvez esse fosse meu atestado de independência - não financeira, não emocional, porém mais profunda, uma independência subjetiva, mais gostosa, mais atraente, em saber que a partir dali qualquer outra coisa que eu fosse me meter a fazer, eu conseguiria. Pra muita gente pode parecer bobagem, mas aquele momento de chegar no aeroporto de São Paulo e me perceber sozinho no meio da multidão teve um significado.
Como já havia pesquisado tudo em todos os sites possíveis e lido informações redundantes durante várias semanas antes de vir, eu já sabia uns nomes de lugares, rotas de ônibus e metrô, e automaticamente segui caminho. Peguei um ônibus do serviço de aeroporto até a estação de metrô do Tietê, e dessa estação segui para a estação Paraíso, próxima ao hostel que fiquei hospedado. No início foi meio confuso ver aquela quantidade de gente andando rápido para todos os lados, tantas placas com nomes e escadas para vários acessos, mas só foi seguir as setas intuitivamente que eu consegui chegar na estação que queria.
Sai da estação, segui o caminho que vi no mapa, desci a maior ladeira da minha vida e cheguei num hostel chamado Aki. Lá fui recebido por uma senhora oriental (não vou dizer japonesa porque não sei de onde ela é) chamada Tamiko. Eu havia chegado em casa.
Me senti bem acolhido por ela, que tratou logo de aprender meu nome e me apresentou toda a estrutura do local - por sinal muito boa, tudo novo e bem pintado, limpo e com um staff simpático e eficiente. Dona Tamiko conversou tanto comigo que fiquei mais cansado de falar do que de descer a ladeira, não estou reclamando.
Expliquei qual o objetivo da minha viagem, e como surpresa, ouvi ela dizer que também iria para o show do Blunt. Iria! Desistiu por causa de uma amiga que seria a companhia dela, mas que desistiu também. E pelo fato de ela ter mais idade - a Tamiko, ela desistiu para não ir sozinha. Vendo que eu estava só (ela deve ter achado isso uma coisa ruim) decidiu que cada hóspede que ela visse passando perguntaria se esse hóspede também iria ver o Blunt haha.



22:00 - ZZZzzzzZZZZ

toc toc
''Oi Cristiano!!!! Tenho uma surpresa! Encontrei um acompanhante para você! Esse rapaz também vai para o show, e adivinha? Ele é de Manaus também!!!''

Eu só de cueca, com cara de sono cumprimentei meu novo colega de viagem - o primeiro imprevisto para um dramático controlador que já havia planejado cada passo. Conversamos, e ele se convenceu a sair do quarto compartilhado entre 15 pessoas, para dormir no mesmo quarto que eu, também compartilhado para 6 pessoas, mas que naquele dia só eu tinha reserva para dormir lá, e depois o novo colega. Conversamos até tarde e já parecíamos amigos de infância.

No dia seguinte, pelo fato de termos conversado até tarde, acabamos dormindo até tarde também - além da própria contribuição do tempo maluco que faz em São Paulo em março, no qual chove a cada 15 minutos e entre os intervalos da chuva faz sol. Essa chuva dá mais sono... Durante a tarde nos preparamos para o show, e saímos de táxi. O show foi no Clube Atlético Juventus, no bairro Parque da Mooca. Decidimos ir de táxi porque já estávamos atrasados e poderíamos ficar sem um lugar bom no palco. Chegamos por volta de 15:30 e já tinha mais de 30 pessoas na fila, inclusive fãs clubes fardados, com tenda, comida e broches. Foram sete horas de espera, o show estava marcado para começar às 22:00, mas só abriram o portão às 23:00. Durante a tarde choveu muito, compramos capas de chuva, tiramos fotos com as pessoas só pelo fato de termos vindo de Manaus... E ganhei um broche de lembrança de uma moça simpática que estava distribuindo para todos. Antes de abrirem os portões ocorreu uma briga por que uma pessoa queria furar a fila e entrar na frente de quem já estava há horas lá, como eu e o novo colega.
Quando abriram os portões teve correria, o povo desesperado querendo chegar logo para pegar um bom lugar... Eu corri também e consegui ficar logo na frente, do lado esquerdo do palco mas na frente. Depois de muito calor, gente desmaiando e vaias, o show começou por volta de meia noite e aí foi tudo incrível. 

Gostoso

Realizei um sonho de assistir o James Blunt cantar ao vivo, eu fiquei tão feliz que comecei a chorar ali mesmo, ouvindo 1973 e todas aquelas pessoas reunidas cantando junto, foi tudo tão incrível. Ta aí uma coisa boa que vai ecoar na minha cabeça pra sempre, e sempre.

No dia seguinte ao show dormimos praticamente todo o dia e não deu para aproveitar muito. Nesse dia compramos umas coisas para preparar para comer na cozinha de hóspedes. Enquanto eu fazia uma arroz e preparava frango, entrou na cozinha uma senhora com uma sacola cheia de coisas. Ela disse algumas palavras meio tímidas em espanhol, e eu, metido a inteligente como sou, puxei logo assunto num espanhol improvisado mas que depois recebeu elogio. Ela queria comer tapioca, disse que havia gostado muito mas não sabia preparar... A mulher foi no supermercado, comprou goma de tapioca, queijo e orégano - o tempero. Até aí tudo bem, só uma pessoa estrangeira querendo comer tapioca. O problema foi na hora de usar o fogão - daqueles que não tem fogo, é apenas uma chapa de vidro que se aquece. É IMPOSSÍVEL FAZER TAPIOCA NAQUILO. pronto resumindo, eu disse que era acostumado a fazer tapioca, e que a ajudaria. Colocamos a goma numa panela e na hora de ligar o fogão, ele automaticamente ficou em 2000 watts. A goma na panela fez um barulho estranho e EXPLODIU. voou tapioca para todos os lados, sujou a mulher, a cozinha  tudo mais... Foi bem engraçado.

Maria, mora na California, tinha ido visitar o filho de 20 anos que está morando em São Paulo e veio estudar no Brasil por um tempo. Ela falou sobre a vida nos EUA, contou curiosidades, sobre os medos de ter um filho tão novo sozinho mundo a fora, com estranhos... Os medos de qualquer mãe.


E na sexta-feira fui dar uma andada no Centro de São Paulo... fomos até um local chamado Galeria do Rock, é bacana tem umas coisas interessantes. Foi nesse dia que conheci pessoalmente um amigo até então virtual, Ricardo. Nos falamos pela internet há uns 3 anos, e agora tivemos a oportunidade de se conhecer de verdade... Ele ficou sexta, sábado e domingo hospedado lá no hostel comigo. Na sexta a noite ficamos no hostel bebendo cerveja, cantando e conversando, foi aí que conheci o filho da Maria, ele se enturmou logo e já havíamos formado um grupo.
No sábado, meu colega manauara de quarto voltou pra casa, e como eu só retornaria no domingo, resolvi sair com o Ricardo e o namorado dele, Gu, que também veio me ver, e ficou hospedado conosco. O novo colega americano resolveu ir se hospedar em outro hostel, já que naquele tudo era pago, inclusive a água, então saímos de manhã, ajudamos ele a carregar as coisas, almoçamos e fomos para o outro hostel deixar as coisas dele e sair para dar uma volta. Fomos visitar a Pinacoteca de São Paulo, com uma exposição legal de Burle Marx, e depois partimos para a Rua Augusta! 
às 19:00 já estava começando a fervilhar. Paramos num barzinho temático de ''carniceria'', tomamos uma lá, e aos poucos fomos visitando outros lugares bacanas, mas tudo muito caro. Eu, Ric, Gu e o colega dos EUA. Ficamos a noite toda praticamente caminhando na Paulista, entrando e saindo de barzinhos, e por fim, acabamos comprando cerveja num supermercado e ficamos tomando nas escadas do Franz Café... Ficamos lá por horas conversando, bebendo, e foi bem bacana. Eu não costumo fazer esse tipo de atividade em Manaus, mas lá abri uma exceção justa. 

(f)utilidade pública: Achei um bilhete perdido para a Amanda no meio da Paulista, se um dia a Amanda ler esse texto, pode me procurar para eu devolver o bilhete ;) (quem sabe a Amanda viaje muito, por isso não vive no meio deles)

Ganhei o apelido de 'dramático' leia com o som de um estrangeiro de língua inglesa falando. Dramático porque eu penso demais, talvez, e meus fluxo de pensamento acabam escapando sempre. hahaha faz parte.

Terminamos a noite num barzinho na mesma rua do hostel, a rua do Paraíso, uma ambiente muito bom, pequeno, com um senhor dono do bar muito carrancudo, mas segundo uma reportagem na parede, assim ele conquistou os clientes. Todos estávamos altos, exceto o Ric, que se continha na bebida (não sei porque, mas ele alegava que poderia fazer mal - ou seja, fazendo A KATÓLYCA) e ficamos lá até uma da manhã. Depois voltamos para o Aki, como o american boy já tinha feito check-out pela manhã não poderia mais dormir lá, mesmo assim demos um jeito e ninguém ficou sabendo hahaha. Fomos para o quarto nós quatro, conversamos mais um pouco e resolvemos dormir. Assim terminou a viagem pra São Paulo.

Não vou mais entrar em detalhes, pois seria invasão de privacidade, minha, e de quem participou da viagem, evitei usar muitos nomes, ou descrever mais detalhes sobre a vida das pessoas com quem cruzei, mesmo sendo um blog diário pessoal, não deixa de estar na internet, e sujeito a visitas seja de quem for um dia encontrar isso que não seja por mim mesmo. Agora um pouco dos devaneios sobre a viagem, já que a primeira parte do post foi um relato descritivo, não poderia deixar de ter uma visão mais subjetiva e reflexiva sobre a viagem como um todo.


Viajar, pra mim, tem se tornado especial e um momento de descobertas em todos os sentidos. No começo era mais para ver paisagens e coisas diferentes - ainda é, mas agora com um tempero a mais. Nunca havia ficado num hostel, e tinha preconceito quanto a isso. Porém agora percebi que é um ambiente bacana - sem assassinos, talvez, onde é possível conhecer gente nova, ter novas experiências e treinar o inglês e o portunhol haha. Aqui em casa algumas pessoas falam sobre viagem de uma forma ruim, como se fosse um luxo, ou uma vaidade desnecessária. Pra mim desnecessário é se prender em casa, se prender a um lugar e não ter vontade de conhecer o novo, ver com os próprios olhos a vida acontecer em outras partes desse planeta, ver outras pessoas, cruzar histórias de pessoas que talvez você nunca conhecesse na vida se não viajasse, fazer amigos, caminhar quilômetros numa avenida gigante em São Paulo, pegar chuva na fila para ver um show, tentar fazer tapioca com uma estrangeira e ver a tapioca explodindo, é dessas coisas que eu falo, parecem simples mas fazem a diferença sim pra construir quem você é, ou se se descobrir de verdade, ter autonomia pra ir aos lugares e pedir informação e conseguir chegar lá. Como li uma vez num livro do Alain de Botton a viagem é uma autodescoberta e das mais incríveis que alguém pode ter, seja por 5 dias como foi essa minha, seja por vários meses como tem sido a do american boy, seja pela vida toda, como é a vida.


Valeu :)