terça-feira, 16 de setembro de 2014

Gente que não entendo. Na verdade até entendo. Mas não.

Hoje senti necessidade de escrever. Dez dias desde o último texto, um intervalo mais decente do que entre o segundo e o terceiro. Estou tão pensativo esses últimos dias. Parece que o mundo tem girado tão mais rápido e as pessoas estão mais hostis do que nunca. Mas esse não é o maior problema. Enquanto escrevo isso, o tema de fundo:


Voltando, vim pra escrever sobre um pensamento que me ocorreu sobre um amigo agora. De fato não somos mais tão amigos como antes, mesmo assim mantemos contato. Nós compartilhamos uma grande quantidade de pensamentos e ideias, e talvez isso nos aproximou. Ele é hétero, até que se prove o contrário. :3
Ultimamente ele tem bancado o revolucionário que quer bater de frente com essa nova modinha do politicamente correto que vem contaminando a internet, as pessoas, mídia e tudo mais. Ele não é lá muito gay friendly, tem até um discurso MUITO preconceituoso. E isso serve de pretexto pra ele bater de frente também com os movimentos do tipo - incluindo eu. Como muita gente sabe, nos jornais e internet tem toda uma estatística de casos de homofobia no país, mortes por causa disso e outras coisas. O guri então vem procurar números pra mostrar que toda essa atenção com isso é exagero. Que tudo não passa de marketing para gays ficarem na mídia se fazendo de coitadinhos. Não entendo porque ele faz isso. Na verdade entendo muito bem, e vou já escrever sobre.
Outro lance que ele discorda é quase tudo relacionado à religião e o mau uso que muitas nomenclaturas religiosas novas fazem disso, e nisso nós concordamos, mas não vem ao caso agora.
Ele diz que querer ter aceitação social num mundo - ou num país - que isso é coisa de outro Universo, é querer uma Utopia. E até citou uma frase de um político dos EUA que se matou depois de declarar que queria um mundo perfeito, como forma de dizer que o que eu e muitas pessoas almejamos não passa de um sonho distante e utópico - pra mim se continuarmos dependendo de gente como ele, vai sempre ser utópico e nunca real. Obs.: utópico não é sinônimo de impossível.
Ele nasceu numa família ''feliz'', papai, mamãe, irmã, um cachorro e tudo bonitinho como manda o script. Teve seus amiguinhos na escola, namoradinhas, brincou de coisas de menininho e entrou na faculdade. Teve mais relacionamentos na vida do que eu espero ter até meus trinta. Todos com mulheres. O papai deu até um carro - na verdade não deu deu, só emprestou por um tempo, aí virou posse. E ele aprendeu a dirigir, e ficou usando o carro nos tempos finais de facul, levava as namoradas pra passear, enfim, um garoto hétero normal. Em casa, a mãe religiosa, o pai nem tanto, a irmã crente louca, mas havia certo equilíbrio - eu acho, pelo menos segundo ele me contava. Aí entra minha angustia. O que leva um guri que teve esse contexto de vida vir querer derrubar uma luta de um grupo que simplesmente não teve essa ''paz'' social que ele levou até chegar onde está hoje? Não coloquei a pergunta direito, vai outra: O que leva uma pessoa que teve todo um apoio familiar, aceitação social, podia sair com a garota que quisesse, de carro, o papai dava dinheiro, pagava cursinho, e tudo mais, o que leva ele querer ir contra alguém ou alguns que não tiveram o mínimo de tudo que ele teve pra crescer? Ele não passou por nem um pingo do que um homossexual ''médio'' passa na infância e adolescência, fase adulta e velhice. Não passou e talvez nunca vá passar, só pelo fato de ser hétero. Ele não sabe a dor que é - física e menta, o cansaço que é um gay simplesmente não ter a mesma liberdade que ele teve, e mesmo assim ainda ter que conseguir força pra aturar um discurso de gente como ele. Não, ele não sabe.
Não o transformo num mostro, só o reconheço como fruto social construído em cima de tudo que não me faz bem. E não tem me feito.
E ele é só mais um das dezenas de casos e conversas que ouço quase diariamente, gente que diz que pessoas como eu deveriam ser exterminadas - sim, já ouvi isso de um tio, e ele não sabe de mim. Ou que gente como eu é a vergonha da família - como ouvi de uma mãe, ou que nenhuma mãe e nenhum pai querer ver o filho assim, porque querem ter netos e ver o filho ser feliz ao lado de uma esposinha - ouvi isso de uma colega de faculdade. Ou que minha sexualidade foi uma escolha e que no futuro eu deveria muda-la - como ouvi do meu pai. Sim, tenho que conviver com essas frases, essas memórias ecoando na cabeça até sei lá quando. Espero ainda ter sanidade na velhice, pra lembrar disso, não de forma ruim, mas como aprendizados que vou levar pra algum lugar depois de partir, ou não. Pra onde vamos mesmo? Enfim, precisava desse desabafo e não vejo caminhos pra conversar com alguém da forma que posso conversar com as letras. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Re-Volta.

De volta. Depois de meses. Não sei quanto. Gripado, deitado na rede, ouvindo Tan Biónica, uma banda argentina muito boa de ElectroPop. Acho que vou começar a escrever novamente no Pancromático, pra apaziguar minha necessidade de conversar com as pessoas de forma tão intensa que ninguém presta atenção. Não é vitimismo, é só uma forma de escape do que quero dizer, dos livros que leio, das músicas que ouço e do que penso. Ah... O que penso, muito em desacordo com o que a maioria esmagadora das pessoas pensam ao meu redor. Política, Sexo, Sexualidade, Gênero, Religião e essas coisas todas muito polêmicas que estão em pauta ultimamente.
Acabei de tomar uma cuia de tacacá com uns camarões um pouco salgados além da conta. Enfim, estava bom. Há tempos não tomava tacacá.
Uma hora dessas estou gostando (não sei se tão de verdade o quanto penso) de alguém que está longe. Na verdade inacessível, porque longe é relativo. Ele está em outra cidade, nos conhecemos em uma viagem que fiz para lá no mês passado. Ficamos juntos durante todos os dias. Perdi minha virgindade com ele, sem penetração, mas perdi. Foi tudo tão intenso, tão bom, tão incrível, nos beijámos nas cachoeiras, nas trilhas, na estrada, no quarto, ficávamos abraçados e era tão bom sentir alguém, o calor de alguém, o cheiro de alguém, a barba dele no meu pescoço, a forma como ele, sendo maior do que eu, me abraçava e parecia que ia me proteger eternamente. Mas tudo passou, agora faz parte das nossas lembranças. Ficaram os votos de retorno e continuidade ao que já começamos, ainda trocamos mensagens e ligações.
Tudo isso fez eu repensar algumas coisas sobre a vida, e perceber o quão rápidas as coisas são e o quanto parece que elas se perdem entre os dedos quando achamos que vamos conseguir palpá-las. Tudo se esvai numa facilidade incrível. A não ser, é claro, os casamentos que já duram há décadas. De qualquer forma, um dia vamos acordar e estaremos velhos e tudo vai ser lembrança como o que comemos hoje no almoço. Não sei como estarei, espero está forte o suficiente pra entender e aceitar essa realidade. Ainda não vivi nem três décadas, mesmo assim fico muito preocupado com a velhice. Parece algo tão iminente.
Me pego chorando pela finitude, e o quanto não somos educados para aceita-la. Vivemos como se fôssemos eternos e tudo o mais. Até a ficha cair, ou as fichas caírem aos poucos e você perceber que não vai ver os netos dos seus netos - se quiser tê-los, claro.
Não tive lá muitas experiências até hoje. Experiências sexuais, de relacionamento ou mesmo de beijos. Só beijei 3 pessoas na vida e todas foram num intervalo de 2 anos entre si. E apenas com a última foi que parti para os finais... Enfim, minha vida sexual não vem ao caso e nem deve ser o tema central do meu blábláblá comigo mesmo. Não sei se escrevo pra mim mesmo ou pra outros.
O fato de não ter tido as experiências agora pouco mencionadas me fez e me faz um pouco diferente de outras pessoas que aos 13 anos já faziam coisas que eu nem imagino fazer até a velhice. Presto mais atenção nas características das pessoas, percebo-as. Nunca vou descobrir a personalidade de alguém apenas olhando pra essa alguém, mas o olhar de qualquer ser humano já diz muita coisa sobre essa pessoa. Aquela velha máxima de que os olhos são a janela da alma é pra mim comprovada - não cientificamente. Não sei porque ao certo adquiri essa característica, talvez eu seleciono(ei) muito as pessoas antes de ter qualquer contato. Ou seja só loucura.
O fato de nunca ter transado também me moldou como um ser humano ansioso. Ao ponto de até para atravessar uma rua, ter os níveis de adrenalina lá em cima.
Estou sentindo que quero escrever tudo o que tenho entalado na garganta - e nos dedos, logo aqui nesse texto que já está grande. Não vou fazer isso. Só precisava escrever. Perdi o hábito há alguns anos antes de entrar na faculdade. Aos 13 anos comecei meu primeiro livro e passei a adolescência toda escrevendo livretos de fantasia e histórias e isso me ajudava muito como fuga do que me circundava.
Mas depois da faculdade fiquei mais dedicado às outras atividades e parei. Agora retorno. Falando em faculdade, penso em política. Política. Ano de eleições presidenciais e inúmeras bizarrices temos que assistir diariamente. Ouvir o que não se quer e o que não se quer de novo. Porque o que realmente se deseja parece algo de outro mundo. E não é só pelo desejo, é pela humanidade do que se deseja, pela simplicidade de facilitar a vida das pessoas, pelo simples fato de tornar a vida mais fácil. Mas não é isso que os nosso representantes nesse sistema duvidoso querem. Não vou falar mal de fulano ou beltrano nem de partidos. Não gosto de nenhum. Prefiro reclamar das ideias postas e jogadas nas nossas caras - no plural, todos os dias.
O que faz alguém pensar que deve governar para um grupo seleto de pessoas? O que faz esse mesmo sujeito - sim, é homem, pensar que deve moldar a forma de vida de 202 milhões de pessoas, quiçá os 7 bilhões do mundo, com um livro antigo duvidoso e tendencioso? (Finalmente consegui usar o "quiçá").
Sério. Pra mim é inconcebível alguém ser tão... tão... tosco. Não tenho nem palavra. Tosco. Resume o que penso. Como uma pessoa, ou um grupo de pessoas conseguem ser tão toscos assim? Eles estão com todo o direito de se apegar a algo antes de morrer, e acreditar que vão viver pra sempre - que chato. Mas não me venham impor isso. Deixe a hipocrisia pra lá, seja do bem. É tão difícil pra essas pessoas serem ''do bem''. Tão difícil que duvido que qualquer um deles vá lá pra cima das nuvens como querem. Casos e casos, não generalizo. Mas sou obrigado.
Não quero religiosos fanáticos me governando, eles não representam o que eu passo todos os dias. Não representam meus pensamentos quando acordo e tenho que aceitar mais um dia que não cou aceito. Que vou ter que ouvir coisas ruins sobre minha forma de ser. Sobre meus gostos. Não me representam e nunca vão me representar - seja no céu ou no inferno. Eles não sabem o que é crescer sendo sempre alguém que você não é. Claro, pra esse povo, ou a grande maioria foi muito fácil crescer na tradicional família polarizada, trazer a namorada pra casa, poder andar de mãos dadas com ela sem ninguém nem olhar de cara feia, poder expor aos 4 ventos o quanto a ama sem ter que prestar contas à ninguém. Deve ser mais fácil mesmo. Pra quem não enfrenta o que eu - ou pior, muitas outras enfrentam de forma mais dura, o peso de apenas gostar de pênis não sendo mulher. Até as mulheres, mesmo sendo mulheres, gostando de pênis (ou não) também são esmagadas por esse grupo de pessoas toscas. Deve ser fácil não ter que ir dormir pensando quando simplesmente seu direito de ser humano e poder casar com quem quiser vai ser realmente um direito seu. Deve ser mais fácil acordar e não precisar se mascarar metaforicamente todos os dias em frente ao espelho para ter uma imagem que não condiz com o que você é por dentro. Deve ser mais fácil a vida de quem não precisa ouvir que por causa de sexualidade é inferior.Como ouvi da minha mãe ontem. De que é incapaz de realizar todas as atividade de quem gosta de buceta com o mesmo mérito. Deve ser esse o grande lance. Buceta. Essa coisa feia - desculpe-me quem gosta, deve ser a grande deusa que rege todo o Universo e o livra de todo o mal e única fonte de inspiração para os pais, maridos e homens que devem governar o Universo porque gostam disso.
Não entendo nada disso do que escrevi como vitimismo. Eu posso simplesmente me vesti do que quiser e sair na rua. Uns podem pensar assim. Que eu posso arranjar um namorado e sair com ele de mãos dadas. Claro. Posso. É tudo tão simples. Não seria?
Não vou reler nada do que escrevi. São meus fluxos de pensamento e vou deixa-los do jeito que vieram. Não estou escrevendo pra ninguém.
É melhor finalizar sem um fim. Mais fácil.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Fluxos

Parto das observações do cotidiano. Novidade? não. Começo sobre as faixas de pedestres. Coisas incríveis, cheias de significados e controle. Incríveis por fazer as pessoas atravessarem os verdadeiros paredões de veículos que passam em velocidade numa rua, seja no sinal vermelho de um semáforo, ou apenas ao esticar o braço e esperar a fila de carros parar (pelo menos eu espero todos pararem, vai que...). Tem significados porque servem de caminho para os que não estão num carro possam ocupar aquele espaço por determinado tempo, além disso, num pano de fundo mais amplo, deixa à mostra o pouco de humanidade que ainda temos por parar um veículo, e assim não atropelar nem matar ninguém, para apenas deixar aquelas pessoas atravessarem uma rua. E controle... bem... eu posso deitar na faixa de pedestres e simplesmente ter o controle do trânsito naquele minuto. Enfim. Não era bem isso, mas agora é.



Todos os dias úteis de uma semana, eu atravesso uma faixa de pedestres (quando ela existe) aqui próximo de casa. Preciso atravessar uma rua importante do bairro, com tráfego intenso à qualquer hora. E felizmente alguém resolveu pintar - mesmo com uma tinta que não dura nem 1 mês, uma faixa. A cada minuto pelo menos 10 pessoas precisam atravessar, o que estressa alguns motoristas, já que a fila de carros fica gigantesca enquanto a senhorinha carregando sacolas, ou a moça bonita desfila, ou os caras comuns a atravessam. Um fato curioso é que durante o momento em que se atravessa essa coisa, parece que todas as atenções se voltam para você, como se estivesse em uma vitrine, sendo assistido pelos motoristas, pelas pessoas que esperam no ponto de ônibus, por todos. E isso de certa forma é um fato aceito inconscientemente nas pessoas, o que faz com que algumas simplesmente não pisem em nenhum momento na tinta da faixa, passando exatamente do lado ou alguns metros adiante, sem nunca pisar na faixa. Talvez pessoas tímidas, introvertidas, apressadas. Não sei. Prefiro a pseudo-segurança de está respaldado por aquela tinta branca no chão, caso alguém encoste o carro em mim, além, é claro, de poder exibir minha beleza exótica, e minha barba, enquanto sou o centro das atenções por 5 segundos.

Chega de faixas. Faixas de pedestres são fluxos assim como outras coisas. Portas. Portas de ônibus, de elevadores (portas assassinas, eu diria), portas de escolas, de casa, de hospitais. Milhões de pessoas passam por esses recortes nas paredes a cada milésimo de segundo no mundo. As portas representam um fluxo de mudança contínua, representam o quanto a gente pode avançar. Ou são apenas portas. No hospital, há 3 dias, fui fazer uma consulta ao médico sobre minha gripe quase incurável. E durante o tempo de espera, assisti incontáveis pessoas abrindo e fechando a porta principal do prédio. Aquele puxador ou empurrador de metal, que à meu ver estava apinhado de bactérias, vírus, ETs e sei lá mais o quê, assiste a cada segundo uma história diferente, uma doença diferente, uma despedida rotineira dos enfermeiros. Assistiu uma moça em desespero entrar com a mãe, relatando à recepcionista dores no estômago e vômito vindos do além. Percebi que meu nariz escorrendo e um pouco de febre eram o menor problema. O puxador gelado de metal - o qual a cada toque eu corria para passa álcool em gel, assistia pais entrando com filhos nos braços, um moço da radiografia para lá e para cá esperando alguém entrar na sala para receber raios cósmicos direcionados no corpo. Me assistia esperar. 

Observando a porta, percebi talvez um dos últimos vestígios da nossa ancestralidade inconsciente. O que uns chamam de machismo, outros de cavalheirismo, e outros de outros ismos. Para mim é inconsciente. Um ato para demonstrar alguma proteção ou domínio do macho sobre a fêmea. Praticamente todos, ou quase todos os casais heterossexuais que passaram naquela porta, demonstraram o mesmo comportamento do homem abrir a porta, deixar a mulher passar para depois segui-la de forma protetora e fechar a porta. Algo como ''ela é minha'', ou ''eu mando nessa budega'' ou ''uga-uga-uga''. Enfim. Isso não chega a ser interessante. Talvez seja para quem já esperava há 2 horas sentado. Talvez ninguém perceba essa nuance tão sutil dos fluxos, das passagens, dos passos, dos domínios. Talvez ela nem exista, e eu tenha inventado esse comportamento que não passou de uma probabilidade naquele lugar, e não ocorra jamais em nenhum outro lugar do mundo. Não sei.

De qualquer forma, os fluxos me fascinam. Penso, quando estou num veículo em movimento, num engarrafamento por exemplo, quantos interiores de carros aquele espaço sobre aquele ponto da rua presenciou. Quantas conversas, brigas, risadas, armas, segredos, pessoas que já morreram já passaram sobre aquele ponto. Seria interessante ter um vídeo de 3 segundos de cada interior de carro ao passar sobre um ponto, e depois de 10 anos assistir esses registros passando como um filme. Penso o mesmo sobre aviões, barcos, tudo o que se move. 



Tudo o que gera um fluxo. Até mesmo a Terra. Li uma vez que na ciência Física há teorias que afirmam que não existe um espaço absoluto, que todos os corpos no Universo se movimentam, até mesmo o Universo que se expande distorcendo talvez um espaço e tempo que achávamos ser imutável. Ou seja, nesse exato momento o espaço entre meus olhos e meu computador pode ter sido o mesmo espaço que estava na atmosfera de Júpiter há algumas horas, ou o mesmo espaço que estava entre dois extraterrestres conversando numa praça há 2 mil anos-luz daqui. Também seria interessante ter algum registro sobre isso. Até o Universo é um fluxo constante, tudo se move, nada é absoluto, nem as paredes do seu quarto, nem aquela rocha que está ali há 5 milhões de anos, nem as estrelas. Nada. Somos apenas espectadores da mutabilidade do espaço e da inconstância do tempo. De certa forma, isso é confortador, mesmo para aqueles que se sentem seguros no seu ambiente mais familiar, saber que absolutamente nada está parado, e por isso mesmo não há o que temer. Para onde vamos, ou de onde estamos vindo são dúvidas que fazem florescer os mais incríveis debates e teorias, talvez um belo dia a gente dê de cara com essa resposta vindo em nossa direção também em fluxo. Ou talvez nos extinguiremos e jamais isso será sabido.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Sur Moi

Tarefa difícil iniciar uma postagem num blog/diário/confessionário/amigo secreto. Sem ter muito sobre o que falar, de forma aleatória talvez o mais interessante seja a espontaneidade. Confesso que estou há tempos sem escrever nada. Nada mesmo, nem livros, nem poemas, nem blogs. No máximo números e pequenas anotações.
Nesse momento aqui, ouvindo Ben Mazué, tentando aprender a letra em francês em alguns minutos (e com sucesso) e mandando algumas notas cantando para os amigos pelo Whatsapp, lembro que era pra ter começado esse blog há mais tempo, talvez semana passada numa viagem. Viagens sempre são interessantes para se fazer planos, sonhos, iniciar as coisas. Uma empolgação transcendental que surge do Universo e me faz achar que posso voar. De fato, posso. A única coisa mais chata em viagens longas, especialmente (especialmente) as que envolvem aviões, no meu caso, é o avião. Algo desesperador entrar num tubo pressurizado que vai voar loucamente por aí, há mais de 10km de altura, em média a 70% da velocidade do som. Animador. Mais ainda a cara de paisagem das técnicas em segurança do voo (aeromoças ou comissárias). Aquela cara para fazer você sentir que está confortavelmente num ambiente extremamente seguro, mas que não passam de caras assustadoras de pessoas sádicas que te recebem com honrarias e boas viagens para o seu potencial atestado de morte. É incrível como todos os trabalhadores da companhia aérea que se vai viajar, parecem vilões numa conspiração para fazer o seu avião (exclusivamente) sofrer o acidente. Lembrando que esse é meu ponto de vista (e talvez o de outras 50 pessoas que possam vir a ler isso um dia).



 Do assistente que recebe seu bilhete na entrada do finger, até o mecânico que ''verifica'' o ''bom funcionamento'' das peças antes de cada decolagem. Todos vilões, todos conspiracionistas, que por trás daquele sorriso falso escondem a vontade de te ver em desespero. Desculpe o exagero. Precisei por pra fora. E realmente to me perguntando qual o motivo de esse texto ter tomado esse rumo. Enfim.

Minha companhia pessoal, a gripe, me dá de presente nariz escorrendo, falta de ar, dor de cabeça, tudo que uma boa doença pode oferecer. E talvez inspiração e coragem pra começar a escrever aqui.
Hoje o dia foi um pouco cansativo, dediquei quase todas as horas da tarde para processar uma imagem gigantesca de satélite (sim, trabalho com isso) e que no final ocupou quase 6GB de espaço em disco, realmente muito grande. No final, meus olhos estavam vermelhos, porém o resultado ficou satisfatório. Gosto do que faço, não 100%, mas gosto. No fundo acho que absolutamente ninguém na face da Terra goste 100% do que faz, seja trabalhando ou exercendo outras atividades. Talvez seja só mais uma prova da nossa inconstância. Não somos absolutos, e talvez nunca seremos. Às vezes acho que o que falta nesses 100% para mim, seria está levando pessoas de outros países para conhecer um pouco do lugar onde eu vivo, fazendo trilhas, levando-os para conhecer cachoeiras e florestas. Tirando fotos. Talvez ninguém nasceu para ser uma coisa só. Todos nascemos para fazer um pouco de cada coisa que gostamos, mas por força desse sistema no qual nascemos, precisamos nos obrigar a ter uma única função. Imagino o quanto as pessoas seriam mais felizes se fizessem o que realmente gostam. Uma vez ouvi que a infelicidade é viciante, e talvez essa máxima seja um motivo importante por fazermos o que não gostamos.

 Nesse momento da minha vida, que por sinal está muito bom, tanto na faculdade quanto no trabalho. É difícil eu ter noção do quanto ter uma pessoa (que não seja da família ou amigos) pra conversar, dizer o que sente, elogiar, criticar, receber elogio, é bom. Em caráter de relato, jamais de desabafo ou drama, digo que não tenho muito essa noção e nem tive na vida. Uma única vez alguém chegou e me disse que gostava de mim de forma diferente. E essa vez não existiu, jamais. Só num instante, e se esvaiu como as nuvens num dia de vento. Seria bom, de tempos em tempos, passarmos por uma penseira e limpar seletivamente pensamentos e memórias indesejáveis, que foram bons no seu tempo, porém agora, indesejáveis.



A fotografia para mim é uma paixão. Será corriqueiro nesse blog fotografias minhas (ou não) entre as linhas. Acho que isso dá mais alma para as palavras. Não que um texto sem imagens seja ''desalmado'', mas num blog/diário... acho que fica bom. Devo me lembrar que não escrevo para ninguém além de mim. Talvez de forma indireta tenha posto isso aqui na internet para que outras pessoas saibam da subjetividade de um ser entre os bilhões que ocupam essa Terra, e talvez possam se identificar, criticar, comparar ou sei lá, nada. Só leiam e saiam. Nada além da heterogeneidade da nossa existência, passar nos lugares, cada um com seu nível de detalhes e significados, e apenas não parar. Às vezes o mundo é tão cheio que se torna enlouquecedor. Um defeito meu é querer abstrair a existência num instante. Quando passo de ônibus nos mais diferentes lugares da minha cidade, nas milhares de pessoas que passam na janela, nos milhares de lugares que passam do meu lado todo dia, quero no fundo saber quem são aquelas pessoas, para onde vão, quem construiu aqueles lugares, quem já viveu ali, todas as coisas possíveis sobre tudo. É tudo tão amplo, tão complexo. Sei que jamais durante toda minha vida terei essa compreensão, o que dá certa frustração. Frustração boba e vã de um desejo impossível. 

E de desejos impossíveis sou rodeado. O que não vale ser discutido agora que já me prolonguei demais para um primeiro post. Já é perceptível que assuntos e devaneios não serão escassos. Monótonos como um pensamento qualquer. Interessantes para mim. Enfim, fim.