Hoje senti necessidade de escrever. Dez dias desde o último texto, um intervalo mais decente do que entre o segundo e o terceiro. Estou tão pensativo esses últimos dias. Parece que o mundo tem girado tão mais rápido e as pessoas estão mais hostis do que nunca. Mas esse não é o maior problema. Enquanto escrevo isso, o tema de fundo:
Voltando, vim pra escrever sobre um pensamento que me ocorreu sobre um amigo agora. De fato não somos mais tão amigos como antes, mesmo assim mantemos contato. Nós compartilhamos uma grande quantidade de pensamentos e ideias, e talvez isso nos aproximou. Ele é hétero, até que se prove o contrário. :3
Ultimamente ele tem bancado o revolucionário que quer bater de frente com essa nova modinha do politicamente correto que vem contaminando a internet, as pessoas, mídia e tudo mais. Ele não é lá muito gay friendly, tem até um discurso MUITO preconceituoso. E isso serve de pretexto pra ele bater de frente também com os movimentos do tipo - incluindo eu. Como muita gente sabe, nos jornais e internet tem toda uma estatística de casos de homofobia no país, mortes por causa disso e outras coisas. O guri então vem procurar números pra mostrar que toda essa atenção com isso é exagero. Que tudo não passa de marketing para gays ficarem na mídia se fazendo de coitadinhos. Não entendo porque ele faz isso. Na verdade entendo muito bem, e vou já escrever sobre.
Ultimamente ele tem bancado o revolucionário que quer bater de frente com essa nova modinha do politicamente correto que vem contaminando a internet, as pessoas, mídia e tudo mais. Ele não é lá muito gay friendly, tem até um discurso MUITO preconceituoso. E isso serve de pretexto pra ele bater de frente também com os movimentos do tipo - incluindo eu. Como muita gente sabe, nos jornais e internet tem toda uma estatística de casos de homofobia no país, mortes por causa disso e outras coisas. O guri então vem procurar números pra mostrar que toda essa atenção com isso é exagero. Que tudo não passa de marketing para gays ficarem na mídia se fazendo de coitadinhos. Não entendo porque ele faz isso. Na verdade entendo muito bem, e vou já escrever sobre.
Outro lance que ele discorda é quase tudo relacionado à religião e o mau uso que muitas nomenclaturas religiosas novas fazem disso, e nisso nós concordamos, mas não vem ao caso agora.
Ele diz que querer ter aceitação social num mundo - ou num país - que isso é coisa de outro Universo, é querer uma Utopia. E até citou uma frase de um político dos EUA que se matou depois de declarar que queria um mundo perfeito, como forma de dizer que o que eu e muitas pessoas almejamos não passa de um sonho distante e utópico - pra mim se continuarmos dependendo de gente como ele, vai sempre ser utópico e nunca real. Obs.: utópico não é sinônimo de impossível.
Ele nasceu numa família ''feliz'', papai, mamãe, irmã, um cachorro e tudo bonitinho como manda o script. Teve seus amiguinhos na escola, namoradinhas, brincou de coisas de menininho e entrou na faculdade. Teve mais relacionamentos na vida do que eu espero ter até meus trinta. Todos com mulheres. O papai deu até um carro - na verdade não deu deu, só emprestou por um tempo, aí virou posse. E ele aprendeu a dirigir, e ficou usando o carro nos tempos finais de facul, levava as namoradas pra passear, enfim, um garoto hétero normal. Em casa, a mãe religiosa, o pai nem tanto, a irmã crente louca, mas havia certo equilíbrio - eu acho, pelo menos segundo ele me contava. Aí entra minha angustia. O que leva um guri que teve esse contexto de vida vir querer derrubar uma luta de um grupo que simplesmente não teve essa ''paz'' social que ele levou até chegar onde está hoje? Não coloquei a pergunta direito, vai outra: O que leva uma pessoa que teve todo um apoio familiar, aceitação social, podia sair com a garota que quisesse, de carro, o papai dava dinheiro, pagava cursinho, e tudo mais, o que leva ele querer ir contra alguém ou alguns que não tiveram o mínimo de tudo que ele teve pra crescer? Ele não passou por nem um pingo do que um homossexual ''médio'' passa na infância e adolescência, fase adulta e velhice. Não passou e talvez nunca vá passar, só pelo fato de ser hétero. Ele não sabe a dor que é - física e menta, o cansaço que é um gay simplesmente não ter a mesma liberdade que ele teve, e mesmo assim ainda ter que conseguir força pra aturar um discurso de gente como ele. Não, ele não sabe.
Não o transformo num mostro, só o reconheço como fruto social construído em cima de tudo que não me faz bem. E não tem me feito.
Não o transformo num mostro, só o reconheço como fruto social construído em cima de tudo que não me faz bem. E não tem me feito.
E ele é só mais um das dezenas de casos e conversas que ouço quase diariamente, gente que diz que pessoas como eu deveriam ser exterminadas - sim, já ouvi isso de um tio, e ele não sabe de mim. Ou que gente como eu é a vergonha da família - como ouvi de uma mãe, ou que nenhuma mãe e nenhum pai querer ver o filho assim, porque querem ter netos e ver o filho ser feliz ao lado de uma esposinha - ouvi isso de uma colega de faculdade. Ou que minha sexualidade foi uma escolha e que no futuro eu deveria muda-la - como ouvi do meu pai. Sim, tenho que conviver com essas frases, essas memórias ecoando na cabeça até sei lá quando. Espero ainda ter sanidade na velhice, pra lembrar disso, não de forma ruim, mas como aprendizados que vou levar pra algum lugar depois de partir, ou não. Pra onde vamos mesmo? Enfim, precisava desse desabafo e não vejo caminhos pra conversar com alguém da forma que posso conversar com as letras.



